
Aos
Atores Brasileiros
Será
comemorado este ano o cinquentenário da morte de Henrik Ibsen. Como a
participação do Brasil, sugeri a realização de um festival Ibsen, incluindo
obrigatoriamente representações de Peer
Gynt, Espectros, Inimigo do povo, Pato selvagem e Construtor Solness.
Facultativas: Os pretendentes da coroa,
Brand, A Aliança da Mocidade, Colunas da sociedade, Casa de bonecas,
Rosmersholm, Hedda Gabler, Jonh Gabriel Borkman; e não seria de mais.
Sem
dúvida, a ideia encontrará resistência. Um ator brasileiro, homem lido e culto,
dizia-me, certa vez: “Não desprezo Ibsen; mas prefiro teatro do meu tempo”. É por isto mesmo que este
artigo se destina especialmente aos atores brasileiros.
Afirma-se
que os atores de hoje já não sabem dizer versos. Mas tenho, na verdade, dúvidas
quanto à prosa. É possível que os atores não acertem o estilo da poesia
moderna; mas esta não se destina a ser recitada em voz alta. Muito sabem,
porém, nossos atores acertar a expressão retoricamente fortalecida dos
sentimentos, assim como a representa o verso da tragédia clássica,
shakespeariana e schilleriana. É muito mais difícil dizer prosa: não a prosa
poética de certo grupo de peças modernas, mas prosa comum, isto é, ritmada
conforme as leis da lógica. É este o caso de Ibsen. Seu estilo não serve à
expressão de sentimentos; também é deliberadamente anti-retórico, imitando a
linguagem da gente comum na vida de todos os dias. Sua língua é simples meio de
comunicação entre pessoas que discutem. Mas essas discussões são os núcleos de
suas peças. Toda a ação dramática só serve para chegar-se a essas grandes
discussões teóricas. Não são cenas retóricas. Os atores não devem dizer assim
como os advogados pleiteiam perante o tribunal; nem assim como os réus e
acusadores que manifestam reações psicológicas. Tudo isso só enfraqueceria a
força da lógica ibseniana. Aquelas discussões antes se parecem com
“cross-examinations”, interrogatórios dialéticos através dos quais se revelam
as contradições intrínsecas das teses propostas para solucionar problemas: os
famosos “problemas de Ibsen”.
Eis
a raiz da resistência. Nora já não tem o direito para reivindicar no palco os
direitos da mulher, porque a mulher do nosso tempo já tem todos os direitos. Os
chamados problemas de Ibsen seriam preocupações da “pequena-burguesia” e dos
intelectuais burgueses do fim do século XIX. Seriam problemas obsoletos. As
nossas preocupações teatrais de hoje já não cabem na estreiteza do teatro
realista: são extra-sociais, supratemporais, universais e, por isso, poéticos.
Só
se lhe rejeitariam, como obsoletas, as “teses”. Nora não tem, realmente, o
direito de reivindicar mais do que já obteve, sob pena de transformar-se em uma
daquelas mulheres-dominadoras que Strindberg denuncia; depois, aliás, que Ibsen
já as denunciara em “Hedda Gabler”. Não há, porém, entre Hedda Gabler e Casa de bonecas
nenhuma contradição. Pois o tema de Casa de bonecas não é o feminismo; o
enredo não pretende demonstrar “teses”, mas expor certos personagens à prova
por certos acontecimentos. Só para isso serve o enredo. Só para isso serve o
ambiente, essas pequenas cidades nórdicas e estreitas casas burguesas que são
outro motivo de reação anti-ibseniana. O diretor de cena saberá “atualizá-las”.
E não são tão estreitas assim; pois cada vez quando no palco se abre uma porta
para deixar entrar outro personagem, acreditamos sentir o ar fresco e salgado
do mar lá fora, do oceano que é o mesmo naquelas e nestas paragens.
Estreito
também parece o palco de Ibsen, porque está tão densamente povoado. Há grupos
compactos, ligados pelo amor e pelo ódio, como o grupo de Rolmersholm: Rosmer, o intelectual hamletiano; Rebeka, má e
inteligente; Kroll, o conservador interessado; Mortensgard, o radical menos
fidedigno; e Brendel, o idealista que acabara na sarjeta. Há os “duos”: Nora e
Helmer, Helene Alving e o tímido pastor Manders. Enfim, há os isolados:
Solness, envelhecendo e ainda ambicioso; Hedda Gabler, a histérica pseudo-poética;
Hjalmar Ekdal, o fracassado que posa perante si próprio, o “caráter” mais
original de todo o teatro pós-shakespeariano; o Dr. Stockmann, Alceste e Timon ao
mesmo tempo, mas personagem cômico, porque é otimista; Bernick, menos rico que
inescrupuloso; o advogado Stensgard, fundador da Aliança da Mocidade; Brand, o
homem da vontade de ferro, e Jarl Skule, sem vontade porque cético; e há aquele
resumo de tudo o que é nobre e baixo na natureza humana: Peer Gynt; e os
inúmeros comparsas que os rodeiam, uma assembleia de espectros que pedem sangue
para voltar à vida como as sombras dos defuntos pediram a Ulisses. Gritam por
serem representados... Façamos o Festival Ibsen. Os atores terão de agradecer,
muitas vezes, às palmas da plateia. Gratos também serão os diretores, os
cenógrafos. Grato também ficará o homem na bilheteria.
(Otto Maria Carpeaux,
Revista de Teatro SBAT nº 291)
Nenhum comentário:
Postar um comentário