
O
texto que segue é uma crônica de Arthur Azevedo, publicada em 1901, num período
bem próximo à morte de Giuseppe Verdi.
É
impressionante que até hoje muitos não consigam compreender, como este texto
compreende, numa espécie de retrospectiva histórica e etnológica da influência
verdiana na música popular nacional, a capacidade de comunicação das obras
deste homem (e, daí, a sua genialidade estética), que conseguiram se encrustar
nas mais diversas almas e nas mais diversas culturas.
***
Realizou-se
anteontem no S. Pedro, em homenagem ao divino Verdi, um espetáculo, a que não
pude assistir, apesar de ter sido amavelmente convidado pelos empresários Fuffanelli
& Cia.
Até
anteontem era o Rio de Janeiro, talvez, a única cidade importante do mundo
civilizado que não manifestara ainda, por qualquer forma, o pesar causado pelo
desaparecimento do grande compositor.
Entretanto,
com essa manifestação não se deve contar, por ter partido dos próprios
compatriotas do glorioso velho. Eu quisera que os fluminenses exprimissem por
qualquer meio a sua admiração e o seu respeito.
Paris
vai levantar uma estátua a Verdi. Não exijo que o Rio de Janeiro faça o mesmo;
desejo apenas que não deixe passar em silêncio o grande morto.
É inexplicável essa indiferença, porque Verdi é o
compositor estrangeiro que mais popularidade tem gozado no Brasil; as suas
melodias penetraram, como sol, nas mais recônditas paragens da nossa terra; no
norte alguns trechos do “Trovador” e da “Traviata” se confundiam com as toadas
anônimas da tradição musical.
Quando ouvi pela primeira vez, no Provisório, há 27 anos,
o coro dos ciganos, da “Traviata”, fiquei muito admirado de ouvir, nota por
nota, a música sentimental de uma das mais saudosas modinhas que me embalaram
na infância.
Verdi, que pertencia a todos os povos latinos, tinha
afinidades flagrantes com o nosso temperamento e a nossa índole artística. A
sua música dizia com a nossa natureza exuberante e cálida. Nenhum outro
compositor poderia ser tão compreendido por nós. Daí o sucesso que obtiveram no
Brasil todas as suas óperas, inclusive aquelas que em outros países não foram
ouvidas com grande entusiasmo.
São Paulo, quem em questões de arte toma sempre a dianteira
à capital federal, já pagou a sua dívida à memória de Verdi; quando nos
desobrigaremos nós, fluminenses, desse dever de gratidão?
(Arthur Azevedo, em “O
Paiz”; 14 de março de 1901)
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