
Este artigo merece uma pequena
introdução: é uma publicação da falecida Revista de Teatro SBAT, que, ao que me
aprece, fazia certo sucesso nos meios teatrais, principalmente entre os anos 50
e 70 do século passado. Era uma muito boa publicação, que continha de tudo um
pouco, desde que relacionado com o teatro: música, balé, ópera, cinema...
Neste caso, o texto é sobre teatro
mesmo, mas tratando de uma figura especialíssima, talvez mais lembrada (quando
lembrada) por sua face de compositor: Freire Júnior. O artigo é um tanto quanto
biográfico e escrito por um homem que conviveu lado a lado com Freire, Modesto
de Abreu e, por isso mesmo, é interessante por dar conta de nos esclarecer
alguns detalhes da vida e da obra de um homem que parece hoje completamente
desconhecido no Brasil, mesmo sendo autor de algumas obras-primas da música
popular nacional (e aqui incluo a tetralogia Deusa - Santa - Pálida Morena -
Malandrinha).
É justamente pela total ignorância que
sofre o nome de Freire Júnior hoje, principalmente pelos que se pretendem
entendedores da história da música popular nacional, que me motivei a replicar
aqui este artigo. Espero que desperte o interesse de quem quer que seja sobre a
obra deste grande autor.
***
A SBAT da “Velha Guarda”
XI
Compositores – Autores
Entre
os músicos de teatro, numerosos foram os que ao mesmo tempo se consagraram como
autores de poemas e textos literários.
Nos
gêneros de mais elevada categoria, Abdon Milanez compôs óperas e melodramas,
com palavras e partituras de sua exclusiva autoria, além de dramas e comédias.
Como
autores de operetas, burletas e revistas, distinguiram-se Assis Pacheco e
Sofonias Dornelas. E o nosso sempre moço Freire Júnior, um dos nomes mais
gloriosos ao nosso teatro popular, vem sobressaindo, desde aqueles áureos
tempos, como autor de revistas e burletas de grande e reiterado sucesso.
Freire Júnior é um dos casos mais sugestivos de vocação teatral na história do
teatro brasileiro. Músico sem teoria, foi durante anos o pianista de um dos
nossos mais famosos clubes sociais do começo deste século. Seu prestígio de
executor e improvisador fê-lo ingressar no rol dos nossos mais aplaudidos
compositores de cançonetas da época. Daí para o teatro, foi um passo. E eis que
o autor de uma burleta escrita para a companhia do São José o chama para seu
colaborador musical. Freire aceitou a incumbência e tornou-se logo o “ai Jesus”
dos autores de teatro musicado. Entre outros, tiveram-no como parceiro em suas
obras Gastão Tojeiro e os irmãos Quintiliano.
Convivendo com os meios teatrais, lendo os originais dos mestres e sugestionado
pelos autores de histórias maravilhosas, logo sentiu Freire a tentação de
escrever poemas para suas partituras, como já escrevia letras para suas
composições populares. Sua primeira burleta, com libreto e música sua, foi O homem da Light, levada com êxito ao
formoso teatrinho popular da praça Tiradentes. Foi isso antes de 1920. Era eu
ainda aluno interno da Escola da qual Freire era o cirurgião-dentista. E, como
ali fizéramos, tempos antes, algumas tentativas de amadorismo, foi a mim que o
futuro autor de Luar de Paquetá
confiou a tarefa de copiar a peça. Foi com o maior agrado que o fiz, e pude
desde logo observar quão engenhosa era já a sua técnica e quão natural e
espontâneo era o seu humor e o seu espírito crítico.
Durante anos a fio, produziu Freire Júnior para as nossas melhores companhias
dos gêneros populares, em teatros do centro e dos bairros, sobressaindo entre
os seus melhores intérpretes Alda Garrido e, mais tarde, Oscarito.
Quando, há perto de trinta anos, se criou o conselho deliberativo da SBAT, o
nome de freire Júnior foi um dos mais cotados. Ingressou nele alguns anos
depois, por volta de 1933, concorrendo com o Duque (Amorim Diniz) a uma vaga:
já então sua bibliografia autoral ascendia a mais de 50 obras, contra apenas 12
do diligente e nacionalíssimo criador da “Casa do Caboclo”.
Não
foi porém somente na burleta e na revista que se acentuaram os pendores de
escritor do nosso mais fecundo autor-compositor. Também na comédia ligeira se
exerceu com mestria seu talento de escritor. E não apenas em Luar de Paquetá que o hábil burletista
se converteu no exímio comediógrafo. Esse tirocínio veio-lhe desde os primeiros
tempos em que começou a escrever para o teatro. De fato, entre as suas primeiras
comédias, produziu ele Os milagres de
São Roque, peça engraçadíssima, de trama vaudevillesca, mas com um leve fio
emocional, escrita para os amadores do Clube Euterpe, ao tempo em que,
juntamente com Hermes Fontes, encetava sua proveitosa moradia na pérola insular
da Guanabara.
O
Clube Euterpe era um dos nossos melhores centros de amadorismo. Tinha excelente
sede na estação de Engenheiro Leal, à altura de Cascadura, e ali trabalhavam
amadores de mérito invulgar, como Eugênio Neto e os membros da família Anaruma.
Foi também ali que fiz parte do meu tirocínio de autor incipiente.
Tempo
houve em que Freire Júnior se achou à frente do Pavilhão Democrata, da praça da
Bandeira, do qual foi diretor artístico e empresário associado. Em tempos mais
recentes, marcou época como produtor exclusivo par ao elenco do Teatro Recreio,
com Walter Pinto.
Como
autor e compositor, não é exagero afirmar que Freire Júnior somente conheceu
triunfos. Revezes, sofreu-os, pagando ao teatro esse tributo que sempre pagam
os idealistas. Os que sofreu foram felizmente exceção fugaz. Não os devemos
recordar, porquanto apenas as horas felizes devem ser lembradas, seguindo o
sábio conselho de Álvaro Moreira: “as amargas, não”.
(Modesto de Abreu, Revista de Teatro SBAT nº 291)
Nenhum comentário:
Postar um comentário