sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Melhores do Ano - 2018



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       Seguem abaixo os filmes que considero os melhores exibidos no ano de 2018 no circuito brasileiro. Não levei em consideração as estreias que ainda se seguirão nos meses de dezembro porque creio serem irrelevantes para o resultado.

  1. Antes que Tudo Desapareça, de Kiyoshi Kurosawa
  2. Viva - A Vida É uma Festa, de Lee Unkrich
  3. Missão: Impossível - Efeito Fallout, de Christopher McQuarrie
  4. A Câmera de Claire, de Hong Sang-soo
  5. Os Incríveis 2, de Brad Bird
  6. Bao, de Domee Shi
  7. À Sombra de Duas Mulheres, de Philippe Garrel
  8. 15h17 - Trem para Paris, de Clint Eastwood
  9. A Ilha dos Cachorros, de Wes Anderson
  10. Jogador Nº 1, de Steven Spielberg


       P.S.: Um "salve" ao Jaume Collet-Serra que, a despeito das suas deficiências habituais, fez um filme digno de constar nesta lista: O Passageiro.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Romance de Minha Vida, por Howard Thompson

 


Victoria oferece comédia: Romance de Minha Vida[1]


O elenco desta comédia romântica, formada pela picante e saltitante Debbie Reynolds, e o mais experiente Dick Powell, parece uma boa e refrescante ideia para climas pegajosos. E em "Susan Slept Here", recém-chegada da RKO no Victoria, as duas estrelas estão saltando em um veículo de peso-galo, descrito como inofensivo. Nossa discussão não é acerca do comportamento de alerta deles, ou do agradável pequeno elenco de apoio, ou da modesta e agradável produção da Technicolor, feita por Harriet Parsons. Mas diz respeito ao tratamento altamente arcaico e oblíquo de um roteiro ou de uma situação um tanto incomum, que encoraja uma massa conhecida e padrão, infelizmente, em vez da espuma pretendida. O sr. Powell interpreta um roteirista de Hollywood, vacilante e bem-sucedido, empenhado em escrever sobre a delinquência juvenil. Na véspera de Natal, dois detetives amigáveis ​​ informalmente entregam-lhe uma delinquente de 17 anos como cobaia para observação. Alguns espectadores podem se perguntar por que uma jovem desabrigada e de boa aparência, que coroa um marinheiro com uma garrafa de cerveja, deve ser automaticamente condenada a uma fazenda da prisão estadual. Ou, por falar nisso, como ela poderia se tornar tão convenientemente cultivada, encaminhada e em perfeita justeza, da noite para o dia. A senhorita Reynolds torna-se, no entanto. As acusações são abandonadas, o afeto mútuo leva ao casamento - para a consternação de todos, exceto dos pombinhos. Genuinamente em amor, também, apesar das diferenças de idade (Mr. Powell aparenta 35), ambos parecem ser pessoas de caráter, pelo menos a julgar por uma conversa no café da manhã. De agora em diante, no entanto, Alex Gottlieb, o roteirista, simplesmente "improvisou" os procedimentos sem surpresa, muitas vezes chegando a diálogos perceptivamente divertidos. A mesma ambivalência se aplica à direção de Frank Tashlin, cuja conhecida indiferença, parece-nos, afeta todo o filme. De qualquer modo, um mal-entendido sucede o outro, como quando a srta. Reynolds, instigada pela secretária de seu marido, Glenda Farrell (bem-vinda de volta!), ilude um irritável trabalhador, Alvy Moore, e uma cruel ex-noiva, Anne Francis. Esses incidentes, amplos e estridentes, que incluem uma breve e vacilante sequência de sonhos de ballet, levam ao inevitável final feliz. No geral, "Susan Slept Here" continua tão familiar quanto uma brisa de verão, mas não tão refrescante.


(Howard Thompson em The New York Times; 30 de julho de 1954. Tradução: Beatriz Saar)


[1] A título de curiosidade, exibimos aqui uma das primeiras críticas, não muito elogiosa a um dos grandes filmes de Tashlin, Romance de Minha Vida.

30 respostas da América - Cahiers du Cinéma pergunta a Frank Tashlin






30 respostas da América[1]


Questões


1 – O que faz atualmente? Se trabalha em um filme, quais são as condições de produção?
2 – Trabalha mais à vontade na televisão ou no cinema? Por quê?
3 – Está satisfeito com as condições de produção e distribuição de seus filmes recentes? Por quê?
4 – Qual o seu projeto mais caro? Quais são suas condições de produção? Se é impossível realizá-lo, por quê?
5 – Trabalha com mais liberdade hoje que há dez anos? Algum tabu, moral ou social, é mais fácil de ser tratado hoje?
6 – Hollywood mudou em dez anos? Em que sentido?


Respostas


1 – Estou escrevendo um roteiro que nunca será realizado em Hollywood. Eu sei que é verdade, apesar de estar muito empenhado nele.
2 – Se tivesse de escolher um lugar para trabalhar seria em qualeur canto, desde que nele haja pessoas como aquelas que permitiram a Fellini fazer 8 ½.
3 – Fiquei muito feliz com as condições nas quais fiz meu último filme (Who’s Minding the Store, com Jerry Lewis); descobri que a chefia da Paramount melhorou muito a comida por lá.
4 – Meu projeto mais caro é trazer Buddy Adler de volta à vida, de modo que possa trabalhar com ele novamente sem quaisquer ingerências, cmom no tempo em que estive na 20th Century Fox e onde foi um prazer fazer The Girl Can’t Help It e Will Success Spoil Roc Hunter?
5 – A resposta está na 4.
6 – Sim, há mudanças em Hollywood. Eles constroem arranha-céus de grandes a maiores.



(Frank Tashlin, Cahiers du Cinéma, n. 150-1, dezembro de 1963-janeiro de 1964, p. 24 e 70. Tradução: Yuri Ramos)



[1] Questionário feito em edição especial da Cahiers du Cinéma a 30 cineastas americanos. Um deles: Frank Tashlin.

Mirliflores e Becassines, por Jean-Luc Godard







Mirliflores e Becassines[1]


O grotesco é um gênero mais do que fácil. Ele demanda mais sensibilidade que inteligência e tantos diretores, entre os mais consagrados, quebram seus lombos com isso. Impossível, aqui, enganar, para se exilar na torre de marfim dos incompreendidos. Não obtenha os efeitos desejados, se os seus palhaços não perturbarem ninguém, e você passará, é justo, por um tolo ou, até, por um desajeitado. Dura lei, certamente, mas que permite julgar um cineasta.
Não merece sucesso na comédia senão aquele que a leva a sério, tática mil vezes mais eficaz que aquela de ironizar e de no drama. É por isso que um Tashlin bem informado vale por dois Billy Wilder. O fato é que não se aprende a fazer os truques do melhor gagman de Bob Hope (O Filho do Treme-Treme). E seria melhor pensar mil vezes antes de querer dizer que O Tenente Era Ela é uma mera cópia, enquanto o realizador de Romance de Minha Vida é um original, um certo malfeitor que se dá ao luxo de imitar os bobos de Wilder como Fangio imita Porfirio Rubiosa; ele é mais hábil, não é esnobe, no enquadramento vai mais rápido, e, assim, vai mais longe; não nasceu ontem.
O Tenente Era Ela, no estilo do Voltaire de Candide ou do Hitchcock de Rich and Strange, se perde nas desventuras de um casal de idiotas, cujo amor imenso leva às brigas do lar e, depois, à ruptura. Imaginem Bécassine e o jovem mais bobo que lhes vier à mente, procurando demonstrar que se adoram e, justamente por isso, acabam por se odiar rapidamente. A felicidade não é alegre, diz Max Ophüls, porque a alegria é o contrário da felicidade, assegura Frank Tashlin. Artistas e Modelos não o deixa negar: não há filme mais desolador, se humor mais atroz, mais cáustico, onde a riqueza da invenção agrava a cada segundo a pobreza de situações: o espectador ri, desconfortável no início, num riso forçado, experimentando da vergonha; ri de novo, mecanicamente, preso numa implacável engrenagem de tolices, e acaba por gargalhar porque “isso não era engraçado, afinal”. Gargalhada breve, no cume da estupidez, mas um cume do mesmo gênero que em Bouvard e Pécuchet.   
 Mas voltemos ao nosso ponto de partida. Sem ideia de partida, justamente, em Frank Tashlin. Está aí a originalidade. Só o que conta é a partida, uma cena ao extremo limite do absurdo, no louco e feroz universo do Pim, Pam, Poum de nossa infância.
Se vê que Tashlin guarda o melhor de Lubitsch, de Cluny Brown e To Be or Not To Be. A comédia americana está morta. Que seja.
Viva a comédia americana.



(Jean-Luc Godard, Cahiers du Cinéma, n. 62, agosto-setembro de 1956, p. 47-48. Tradução: Yuri Ramos)



[1] Mirliflore – Palavra intraduzível para o português, do francês arcaico, que designa “aquele que aparenta ser mil flores” (daí a etimologia da palavra). Em suma, caracteriza aquele que, por seu charme e elegância, brilha, ou procura brilhar.
Bécassine – Personagem principal de um quadrinho infantil francês.

Jonathan Rosenbaum sobre Frank Tashlin





Filmes de Frank Tashlin




O brilhante e negligenciado satirista Frank Tashlin uma vez definiu seu material de trabalho como "o absurdo que chamamos de civilização", e os três longas que abrem uma rara retrospectiva de um mês no Gene Siskel Film Center concentram dois lados de seu gênio. O realismo domina em The First Time (1952, 89 min.), uma comédia em preto e branco sobre pais de primeira viagem (Robert Cummings e Barbara Hale); Tashlin evoca Tristram Shandy como narrador do bebê, mas os detalhes sobre paternidade e suas dificuldades econômicos são dolorosamente autênticos. (Um dos roteiristas, Hugo Butler, também trabalhou com Luis Buñuel e Jean Renoir). Tashlin começou como animador da Disney e da Warner antes de se transformar em live action, e seu senso do fantástico é evidente em Son of Paleface e Hollywood or Bust, ambos em cores. A mais louca comédia de Bob Hope, Son of Paleface (1952, 96 min.), acontece em um universo de desenhos animados repleto de detalhes - o equivalente cinematográfico de Mad Comics, que chegou às bancas no mesmo ano. Em Hollywood or Bust (1956, 95 min.), Jerry Lewis, movie-mad, ganha um conversível em um jogo de loteria e ele e Dean Martin cruzam o país para Los Angeles, na esperança de encontrar Anita Ekberg (o busto do título). Como Jean-Luc Godard escreveu certa vez, "Tashlin dedica-se a uma profusão de fantasias poéticas, onde charme e invenção cômica se alternam numa constante felicidade de expressão".



(Jonathan Rosenbaum, disponível em https://signododragao.blogspot. com/2006/07/films-by-frank-tashlin.html. Tradução: Yuri Ramos.)

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

John Landis sobre Lobisomens

   

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     As regras para os filmes de lobisomem são tão elásticas quanto as dos filmes de vampiro e podem mudar de filme a filme. No livro de Stoker, Drácula pode se transformar num lobo por sua própria vontade, mas Larry Talbot, em The Wolf Man George Waggner, 1941) não pode controlar sua transformação e involuntariamente se torna um lobisomem na noite de lua cheia. Lon Chaney Jr. interpretou o infeliz senhor Talbot em 5 filmes para a Universal, sempre andando em pé com as duas pernas na pele do “homem-lobo”. Em An American Werewolf in London (John Landis, 1981), o lobisomem de David Naughton irrompe na Picadilly Circus nas quatro patas. Em I Was a Teenage Werewolf (Gene Fowler Jr., 1957), o adolescente problemático Tony Rivers (Michael Landon) recebe injeções de "hipnoterapia" e "escopolamina" do louco Dr. Alfred Brandon (Whit Bissell) para trazê-lo de volta a um "estado de pré-evolução". Como isso poderia ser útil ou por que um “estado de pré-evolução” seria o de um lobisomem é algo nunca explicado. De todo modo, Rivers se torna um lobisomem ao som de um sino! Espere um minuto; Rivers se torna um lobisomem quando ele escuta um sino? Mais uma vez, como alguém se torna um lobisomem depende do filme ao qual você está assistindo. Uma maldição cigana, uma mordida de lobisomem, nascer em uma certa data, ou até mesmo ser a prole de um estupro pode fazer de você um lobisomem. Por todos esses motivos, o antigo poema soa verdadeiro:


Mesmo um homem de puro coração

Que à noite diz sua prece

Pode se tornar um lobo ao florescer o acônito e quando o brilho da lua aparece.


     Na verdade o “antigo poema” foi escrito em Hollywood, em 1941, no roteiro de Curt Siodmak para The Wolf Man, da Universal. E é assim que nascem as velhas lendas.



(John Landis em Monsters in the Movies, 2011)

O Gênio Americano: Blake Edwards, por Paul Vecchialli



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     Em cinco letras podemos sobrevoar a obra deste cineasta superdotado e subestimado. Cinco letras: uma vez D (Delírio) e quatro vezes P: Profusão, Profissionalismo, Paixão, Pertinência.

  PROFUSÃO de personagens, de papéis de apoio, de figurantes. PROFUSÃO das gags. PROFUSÃO dos “acidentes”. Como se o western (ele inclusive fez um sublime, Wild Rovers, 1971) visitasse o desenho animado. Mas quando falamos de influências, eu não concordo totalmente... Blake Edwards presta homenagem não apenas aos desenhos animados, mas também a todo o cinema. 

  PROFISSIONALISMO. Se ele favorece tomadas longas com arquiteturas complexas, mas funcionais, ordenadas através de uma infinidade de personagens, no meio da qual somem os protagonistas, que às vezes reivindicam o papel de "estrela" pulando para escapar da massa, ele não elimina nenhum dos meios de cinema: campo/contracampo; câmera lenta; a montagem sincopada; as pausas nas quais Peter Sellers encontra a sua ração, como uma personagem de palhaço lunar, um pouco como Buster Keaton; a elipse finalmente, onde ele se destaca na mesma direção de Lubitsch. (Ver o final da cena do restaurante, hilariante, de Victor Victoria).

     PAIXÃO. É óbvio que Edwards é um cinéfilo exigente. Que o cinema é a parte mais importante de sua vida. Além de Keaton e Lubitsch, já mencionados, ele às vezes presta homenagens a Ford, Cukor, Hawks... Homenagens elegantes, fervorosas. 

    PERTINÊNCIA. Nunca nenhum julgamento moral. Nem das situações. Nem das personagens. Nem dos eventos. Uma dialética explodida engendra uma amoralidade absoluta e regozijante. E quando a caricatura aparece, em breves instantes, atingindo todas as classes, nunca é mais do que uma homenagem aos slapsticks.

      DELÍRIO. Evidentemente não é o cineasta da moderação (exceção notável e arrebatadora: Days of Wine and Roses, 1962). As janelas só estão lá para serem quebradas. As paredes, para serem derrubadas. As personagens, para serem espancadas. Cada gag é levada ao extremo, talvez, para deixá-lo sem fôlego e destruí-lo também após ter exprimido o suco.

      Mais elegante do que Stanley Donen, quando este chega a ser elegante. Mais direto e virulento do que Howard Hawks quando se trata da confusão dos sexos. Mais eficiente do que Richard Quine (a quem serviu por muito tempo como roteirista). Mais sutil do que George Cukor (exceto pela joia que é Travels with My Aunt, 1972). Um cineasta de sucessos e fracassos, autor completo e produtor de seus filmes, Blake Edwards permanece um dos mais incompreendidos por sua situação ambígua face ao sistema hollywoodiano. 

      Como se esse sistema temesse ser queimado pelo seu anticonformismo, violento e premeditado. Ele seria perdoado, sem dúvida, por causa do seu talento. Mas a insolência, a provocação, a demolição dos preconceitos são “atravessadas” por deslumbrantes e inesperados momentos de ternura, varridos, por sua vez, por cativantes passes de mágica. 

        E aqui chegamos ao seu verdadeiro estatuto: Blake Edwards é um mágico.  

        Finalmente, devemos um enorme respeito a este autor de filmes (porque ele é um), que foi capaz de realizar filmes tão diferentes e, no entanto, tão bem sucedidos como são Breakfest At Tiffany, Days of Wine and Roses, Wild Rovers, What Did You Do in the War, Daddy?, The Corey Treatment, S.O.B. (onde ele atinge picos de delírio), The Party (o mais conhecido de todos), Switch, a inenarrável obra-prima Victor Victoria e, finalmente, A Shot in the Dark, cujo primeiro plano, de tirar o fôlego de tão magistral e cômico, é um verdadeiro plano-sequência, ao contrário, por exemplo, daquele de Touch of Evil de Orson Welles, cuja lenda é usurpada: há, nesse falso plano-sequência, um plano de corte para o carro explodindo. Difícil desmascarar os erros “históricos”! 

       Em Blake Edwards, a questão da “usurpação” jamais se coloca: sob o manto da desordem, trata-se de um dos mais honestos artesãos do cinema hollywoodiano. 



        (Paul Vecchialli; artigo originalmente publicado na revista La Furia Umana, n. 7, e disponível no site do periódico; tradução: Bruno Andrade e Yuri Ramos)